26/02/2006 18:06
Bandeira Branca
Há horas em que faço um pacto com a solidão. Aceito-a e ela me traz um conforto breve. É aos trancos e barrancos que divido a tão limitado espaço da minha casa com ela. Uma relação de amor e ódio. Eu a odeio, mas volta e meia eu a convido a entrar, com a ilusão de que o convite faria alguma diferença a essa hospedeira insolente.
Sentei a porta de casa, com um cigarro e ela se acomodou ao meu lado. Deixei-a estar como presença que não se nota, mas se percebe sutilmente. Eu fico na cozinha e ela espera no quarto, mas com o espanto percebo que até a solidão, que se fez entidade sólida, se sente só. Veio-me cabisbaixa, submissa, choramingando pelos cantos. Abracei-a e da minha compaixão, chamei-a baixinho de "solitude" _ Fique, solitude _ disse _ Por hoje eu não me importo.
Assim vencidas, não pelo cansaço e sim pelo peso, fizemos-nos cúmplices, por uma tarde inteira, esquecendo que vivemos sempre por matar uma a outra.
Bandeira branca, minha amiga, logo estarei indo embora desse espaço que tomaste, consume-o pelo tempo afora, quando eu voltar daqui um tempo, estas paredes estarão frágeis, mofadas de uma não presença. É aqui que te deixarei quando bater a porta, e um dia sei que não tardará a me procurar e sei que noutra tarde como esta seremos capazes de tomarmos pra nós a única coisa que resta, uma a outra.
*Ouvindo "The New" do Interpol*
enviada por thaisfairy
07/11/2005 23:22
Expediente
Meus olhos pesavam o ar denso da fumaça de toda a última noite que não consegui dormir, e tudo tomou dimensões longínquas e caóticas. Ai, e era complicado demais ir ao bebedouro aliviar a secura dos olhos, era longe demais, o café, pra impulsionar o sangue que corria feito lagoa. E quando é assim, forças coagem, e tudo se faz pacto: O rapaz das piadas estava de mau humor hoje, o bater exaustivo das teclas estava mais histérico hoje, o chefe estava mais exigente hoje, e justo hoje... E fui a escolhida (como não?) para fazer aquele trabalho de filho-da-puta. Quem trabalha sabe muito bem o que é trabalho de filho-da-puta, é exatamente aquele que te tirará do sério por conseguir ser tão árduo e ao mesmo tempo tão inútil. Sim, inútil! Você não tampará os buracos da camada-de-ozônio com ele, você não salvará uma criança morrendo de fome na Etiópia ao executá-lo, você não alterará nem um mísero pontinho infinitas vezes depois de uma vírgula no mercado financeiro, aliás, esse trabalho não valeria nem a energia consumida para mudar um dígito que passa a 300 Km/h nos letreiros da bolsa de valores de Nova Iorque, nem mesmo a teoria do caos, que defende que o bater de asas de uma borboleta no Texas pode acarretar num tornado no Pacífico, poderia prever algum efeito resultante, em milhares e milhares de anos, daquele servicinho safado. Toda a cadeia de possibilidades daquilo que o meu chefe me pedira pra fazer terminava na minha cara emburrada e a cãibra do sorriso ao dizer: "Claro, beleza, pode deixar que eu faço e amanhã estará prontinho na sua caixa de e-mail". Poderia detalhar sobre o que eu fora incumbida de fazer, mas explicar a tarefa a tornaria mais ainda de filho-da-puta, e acredite, eu ainda tenho um certo respeito próprio para denegrir meu ínfimo papel no universo. Basta dizer: era um trabalho de filho-da-puta!
Mas, se os brutos também amam, se os ricos também choram e os santos também pecam, os pobres-diabos fadados a trabalhos filhos-da-puta também pensam! Bem, seria humanamente impossível acreditar nisso se vissem a minha cara fitando a tela do computador nessa tarde, as únicas coisas que se moviam eram os dedos em movimentos mecanizados no teclado decorado e os olhos que piscavam sem expressão, como o piscar de um passarinho, mais nada, nada, nada! Mas dentro daqueles olhos que refletiam a mediocridade assalariada estava a descoberta: A solidão não é o mal do século, solidão é o mal da vida isso sim, o mal do século é a tendinite.
*Ouvindo "Playground Love" do Air*
enviada por thaisfairy
27/10/2005 00:11
Escrito a carvão
"A tua presença entra pelos sete buracos da minha cabeça..."
(Presença Morena - Caetano Veloso)
Chega uma hora que presença é gás inflamável, você fecha as janelas e portas e ela entra pelas frestas, sobe pelos ralos, penetra as rachaduras do teto, contorna as arestas das paredes, umidece, vicia e sufoca o ar. Adentra-se pelos poros, adere na pele, solidifica na carne, enrijece os músculos, se assimila aos órgãos, entope as veias, entorpece a sobriedade e carrega o coração.
Rastejamos pelas ruas e ecoam nomes dos bueiros. À medida que seguimos, os postes se apagam e não há maneira de voltar. Não há retas, apenas pegadas sem passos.
Nessas horas de solidão vigiada, silêncio ressonado e do teu nome que me nega, torno e transtorno diálogos reprisados a fim de encontrar alguma novidade nas minhas lembranças, pois só restou aquele disco riscado com a sua música predileta e odeio admitir o quanto gosto dela, pelo simples fato de não conhecer a próxima.
Quando o fogo do meu isqueiro incendiou, negro, o colchão com as formas primárias e apagadas do teu sono, fez-se fumaça densa do meu caos, e a minha casa sustenta-se apenas do carbono a se esfarelar no seu esquecimento...
... mas presença, meu bem, emana independente da vontade de doá-la ou recebe-la. Apague-me abruptamente do seu convívio, deforme meu rosto no teu passado, cuspa meu gosto da tua saliva saturada, ensuderça-se do meu tom, exorcize meus demônios da tua paz controlada, mas a cada vez que evaporo das suas intenções, sublimo-me presente na tua solidão.
*Ouvindo "Bulletproof" do Radiohead*
enviada por thaisfairy
09/10/2005 14:14
Lifework
Se resumissem o meu ano acadêmico numa única imagem, seria exatamente esta:
Notem os componentes:
1- Cigarro barato, amassado e praticamente vazio;
2- A perna do Pablo, o meu principal provedor de cd's do Radiohead;
3- Plabo e suas excentricidades como usar meia ao avesso e o nosso tédio matinal para reparar nelas;
4- 1984 de George Orwell, livro excelente, mas que está longe de ser uns dos milhares de livros e xérox que eu deveria estar lendo, no lugar dele, para ter uma alguma nota em teoria literária;
5- Completo banimento da biblioteca por não entregar os livros nas datas devidas;
6- A famosa távola da fafil, assim apelidada pelas mesas redondas - "Távola Redonda" hã hã;
7- E tudo isso durante o período de aula.. ho ho ho.
E um milagre há de acontecer!
*Ouvindo "2 + 2 = 5" do Radiohead*
enviada por thaisfairy
07/09/2005 22:39
Ensaio da nojeira
É preguiça, admito! Preguiça pura, o genuíno espírito macunaímico. O problema é aflorar essa preguiça toda quando se mora sozinho e se descobre que as roupas não tem um botãozinho auto-clean (tampouco a louça), não dá pra lavar banheiro tomando banho simplesmente, a comida não brota da panela e principalmente: comida estraga!
Um dia minha mãe me deu uma lata de pêssego em calda, levei a lata pra casa, abri e comi uma metade somente. Guardei o resto na geladeira, bem na frente da caixa de leite. Na manhã seguinte quis tomar um toddy, e eis que tirei a lata da geladeira para pegar o leite e a coloquei no cantinho da pia.
E mil anos se passaram...
Que cheiro estranho é esse? Cheirei tudo minuciosamente, dentro da geladeira, o lixo, o cesto de roupa suja, o ralo, as panelas esquecidas no fogão, o armário de comida. Não, não... é um cheiro de mofo.
E dois mil anos se passaram...
O maldito cheiro persistia, acendi incensos, esfreguei o chão, joguei pinho-sol no banheiro, passei a levar o lixo pra fora nos dias de coleta, rezei o pai nosso e me benzi.
E três mil anos se passaram...
O azulejo da cozinha é amarelo, a lata era amarela, mas um dia eu quebrei a camuflagem do rótulo que começava a esverdear. EUREKA! Ali estava, a latinha esquecida no canto da pia. Me aproximei com cautela, mas fiquei com nojo de ver o que tinha dentro.
E quatro mil anos se passaram...
Peguei uma colher, condenada ao lixo depois da tarefa suja, e levantei a tampa de alumínio. Não, aquilo não era mofo. Toda uma fauna & flora se criou dentro daquela lata. Era uma coisa verde, abstrata, e crescia. Mas nem Sartre, mas nem Clarice explicaria minha "Náusea segundo TH".
E cinco mil anos se passaram...
Eu queria era ver no que aquilo ia se transformar, baixou o Darwin, e todos os dias comecei a observar a relva fungi daquilo que inacreditavelmente fora uma lata de pêssego em calda.
E seis mil anos se passaram...
Comecei a me afeiçoar pela coisa e resolvi mostrar-la a alguns amigos. Foi um show bizarro! Ninguém se atreveu a jogar aquilo fora, poderia ser radioativo, corrosivo, explosivo, etc.
E sete mil anos se passaram...
Era dia de faxina, tinha que ser. Temi que chegasse a hora que a lata começasse a conversar comigo, ou então, que num dia qualquer quando chegasse do trabalho, saísse tentáculos da lata e me levasse para uma dimensão desconhecida, como naquele filme Jumanji. Olhei pra lata e saí correndo.
E oito mil anos se passaram...
Acordei, abri a lata, olhei a coisa e falei: "Cara, que coisa nojenta! Credo" e joguei a lata fora.
*Ouvindo "Heaven" do The Rapture*
enviada por thaisfairy
28/08/2005 17:43
Caleidoscópio
Gira gira gira o caleidoscópio de pálidas cores iguais,
as formas que não se encaixam
e o espaço entre elas que não me deixa em paz.
Quero gritar, quero que esse som se liquissoe dentre minhas lágrimas... quero esparramar o amor do meu sangue, pois tanto amor coagula nas minhas veias, entopi, sufoca, prende. Tenho milhares de passagens para qualquer lugar, mas o trem nunca chega, nunca chega, nunca. Essa respiração pesada, com uma embriaguez ácida, esse cansaço sem forma, esse vai e não chega, essa inércia apática, o onírico correr debaixo d'água.
Gira gira gira o caleidoscópio de pálidas cores iguais,
as formas que não se encaixam
e o espaço entre elas que não me deixa em paz.
Era desse intervalos que nos referíamos naquela tarde?
O intervalo que precede outro intervalo dando continuidade a outro intervalo?
São as formas que não se encaixam, meu bem, é o piscar constante dos olhos, é o tão esperado sem novidade alguma. Nossas vidas estrondam em milhares de decibéis abafados, um trovão repentino que não assusta, é o clarão fugaz que não nos deixa definir uma paisagem rígida para nos comovermos. Tão grande, tão desapercebido.
Gira gira gira o caleidoscópio de pálidas cores iguais,
as formas que não se encaixam
e o espaço entre elas que não me deixa em paz.
....
Gira, volta, gira, volta
*Ouvindo "There There" do Radiohead*
enviada por thaisfairy
13/08/2005 21:48
Memória de Minhas Putas Tristes
(Ou Como não fazer uma análise que presta)
Uma hora alguém precisa ouvir a profª de Teoria literária e dar algum crédito por ela obrigar os alunos, que ainda acreditam que em uma semana dá pra digerir um ganhador do Nobel de literatura e que em anos e anos de solidão o livro estaria nas estantes a paisana só esperando que uma multidão de letrandos e outros diabos tivessem a boa vontade de pegá-lo, a desvendarem o mistério fantástico dos livros que desaparecem das estantes inóspitas nas vésperas do vencimento do prazo de leitura. E quem lucra com o mito?! Primeiro os vendedores ensebados dos sebos mofados, depois os oftalmologistas que tratam das vistas estragadas daqueles que ignoram que ler num ônibus em movimento fode a vista. Foi assim, entre uma curva e outra, entre uma dor entre os olhos e a testa, que descobri o realismo fantástico de Gabriel Garcia Márquez com o seu "Cem Anos de Solidão".
Mesmo eu estando resistente em entregar à minha cara profª os créditos merecidos, por conta de uma nota baixa numa análise machadiana, devo admitir sua importância pela indicação.
Nesse pós frenesi dos Cem Anos, corri até a livraria para comprar o novo romance do escritor colombiano - "Memória de minhas putas tristes" - e olha, a coisa é boa.
A priori, o recém leitor do autor, pode estranhar a ausência de sua característica mais peculiar, o fantástico, mas o curto romance ganha pela simplicidade.
Hoje, lendo uma reportagem na revista Entrelivros sobre a nova obra, descobri que nas referências bibliográficas de Garcia consta Kafka, Virgínia Woolf, Vladimir Nabukov, entre outros.Bem, enfim, o livro é ótimo e o escritor é foda.
Agora, finalmente, perante todos, perdoarei a minha profª de Teo. Literária, pois acabo de perceber que não tenho paciência para fazer uma análise literária. tsc tsc tsc
*Ouvindo "Monkey Gone To Heaven" dos Pixies*
enviada por thaisfairy
04/08/2005 12:44
Kid Aposentada
(Post absolutamente tapa-buraco)
Hoje eu comprei o Kid A do Radiohead, pois estou decidida a ter muitos cd's muito bons, quero ter cerca de 2,000 cd´s muito bons para quando eu tiver 60 anos e ter que enfrentar uma fila de 30 horas no INSS para receber a minha aposentadoria. Claro que nesse ano já terão inventado uma espécie de MD capaz de amarzenar 2,000 cd´s muito bons, só que não será com tecnologia laser, pois acredito que o mundo ainda não deu a chance que os chips mereciam. O poder de armazanamento, compactalização e conservação de um chip é sem dúvida, superior ao laser. Não que o laser não seja uma boa tecnologia, mas o problema ainda é a delicadeza e o espaço físico que ele precisa ocupar para carregar um número inferior de dados comparado aos esquecidos chips. Pois bem, 2,000 cd's muito bons serão o bastante para enfrentar a interminável fila do INSS, pois ao contrário da tecnologia, que evoluirá, a burocracia e a negligência com os idosos continuará estaganda nesse país.
Para receber a minha aposentadoria, precisarei trabalhar e para trabalhar,preciso manter o emprego e para manter o emprego, preciso maneirar no volume que escuto o Kid A, portanto ainda não consegui apreciar o cd do modo correto, sim, pois há um modo correto de analisar um cd. A análise de um bom cd é por etapas: Primeiro analisamos os periféricos do cd, ou seja,a capinha, o encarte e o próprio cd, isso geralmente fazemos ao comprar o cd, no caminho de volta pra casa, quando não contemos o entusiasmo e já rasgamos o plastiquinho com os dentes no ônibus /carro /taxi /trem /lotação /carroça /etc. Quando chegamos em casa,obviamente colocamos o cd no respectivo aparelho, aumentamos o cd e vamos ouvindo o conteúdo na modo demo-play: Escutamos os primeiros 30 segundos de cada música para saber como elas são. Depois de ouvir todo o conteúdo do cd em 3 minutos, voltamos às faixas que já conhecemos ou que nos chamaram mais atenção. Feito o reconhecimento do material, começamos a análise mais profunda: A letra. Escutamos as músicas acompanhando com o encarte e assim, decoramos lentamente as letras. Por último, chegamos ao estágio máximo da análise de um cd, quando colocamos da primeira faixa até a última sem pular nenhuma, sabemos o que cada música diz, onde cada guitarra entra,cada quebrada da bateria, cada gemido do(a) vocalista e cantamos juntos ou apenas viajamos longe e depois guardamos o cd com o maior carinho, sabe?
Agora imagine ter 2,000 cd´s muito bons aos 60 anos de idade. Bem, sinceramente acho isso muito paradoxal, vou explicar por quê: Cada música muito boa pede um cigarro, cada cigarro dura cerca de 3 músicas, cada cd tem em média 14 músicas e a cada cigarro que fumamos perdemos cerca de 7 minutos de vida... façamos a conta: 14/3 = 4,6 (cigarros por cd) 4,6 x 2,000 = 92. 000 (cigarros em 2,000 cd´s muito bons) 92,000x 7 = 644,000(minutos a menos na minha vida)... ai ai, bem que tentei fazer a conta, mas juro que demorei mais de 30 minutos, sendo que estou com uma calculadora na mão. Enfim, isso tudo quer dizer que as probabilidades de que eu chegue aos 60 anos de idade com 2,000 cd's muito bons é bem baixa. Entende o paradoxo da coisa? Estou querendo ter 2,000 cd´s muito bons para enfrentar a fila do INSS sossegada, mas se eu tiver 2,000 cd's muito bons eu nunca irei chegar aos 60 anos! Tenho poucas alternativas na minha vida: ou eu paro de fazer/comprar cd's muito bons, ou eu paro de fumar, ou eu não me aposento.
Hummm... Complicado essas coisas.
*Ouvindo "How to Disappear Completely" do Radiohead*
enviada por thaisfairy
10/07/2005 02:04
Condução Humana
Sabe, é que eu não queria que o dia acabasse tão cedo. Fui correndo, peguei o ônibus para tratar de existir. Sempre entro meio torta e demoro para me equilibrar naquelas curvas, é que meu corpo não aceita essa inércia tão fácil. Piso naquele corredor emborrachado e sinto que todas as pessoas me olham enquanto passo o cartão pela catraca, corro o olho pelos lugares disponíveis e trato de sentar perto da porta, de preferência ao lado da pessoa mais normal possível. Gosto das janelas, as quais geralmente estão embaçadas, me encolho e crio coragem para perceber toda essa vida que passa através desses vidros ensebados. É que eu preciso ver o rapaz olhando o relógio enquanto espera para atravessar a rua, a mulher gorda com as sacolas de uma loja de moda feminina nos braços, a mulher de esmalte transparente que muda a marcha do carro ao lado. E olho as folhas nas árvores, e me esforço para focar em cada singularidade dessas folhas, que é pra eu me sentir significante. Para ser sincera eu nem penso em nada, só quero continuar olhando.
E eu ainda acho que isso tudo não preenche, sim, apenas dá forma ao vazio, e são essas formas que eu encontro de ser mesmo não sendo. Logo darei sinal e tudo isso vai passar. Eu queria chegar cedo... Apenas mais cedo, mas fiquei presa a cada continuidade possível do asfalto percorrido.
Quatro ônibus por dia.
*Ouvindo "I Love Rock 'n' Roll" do Jesus and Mary Chain*
enviada por thaisfairy
27/06/2005 09:41
Sómambaias
Estou solitária. Bem, isso é óbvio, eu sempre estou solitária, é aquele típico blablabla: "Ai, sozinho na multidão", mas não me refiro a esse tipo de solidão impenetrável, tô falando de ser só, viver só, falar como uma pessoa só, ter relacionamentos sós, pensar só e querer coisas de quem é só.
Sim, esses dias quando voltada do trabalho eu pensei: "Eu vou comprar uma samambaia." Fiquei pensando num lugar onde eu poderia pendurar um vaso com a samambaia. Pode parecer normal alguém querer ter uma samambaia, mas veja bem, eu nunca fui dada a essas coisas bucólicas, pra mim, o presente mais estúpido que uma pessoa pode dar são plantas. Mas hoje eu pensei que ficaria bem feliz se eu ganhasse uma samambaia. Tenho medo disso.
Esses dias eu acordei de madrugada, preocupada com uma prova de lingüística, acendi um cigarro, coloquei Radiohead, me debrucei na janela e fiquei pensando, observando os vira-latas que andavam na rua, e assim fiquei durante uns vinte minutos, apenas observando os cachorros e me escondendo atrás das cortinas quando alguém passava. E eis que isso virou um hábito, uma espécie de rito pré-letárgico, tão automático como fazer xixi ao acordar.
Ontem (domingo), estava de folga, deitada na cama, olhando para a parede. Levantei e coloquei o cd do Weezer, começei a mexer a cabeça, depois os ombros e logo surgiu uma guitarra imaginária, foi uma beleza, um show de 20,000 pessoas, com direito a mosh, amplificadores destruídos (a caixa de sapato) e palhetas jogadas para o público insandecido.
É... estou só, sou só. Todo só é um pouco louco, por apenas ter a liberdade de ser louco naturalmente.
Acho que não vou mais comprar a samambaia. As paredes também são ótimas interlocutoras e, além do mais, não morrem. É... só isso.
*Ouvindo "On Top" do The Killers*
enviada por thaisfairy
14/06/2005 11:46
Formigas
Há formigas na minha casa. Com meu relaxo, provenho seu sustento nos rastros açucarados que deixo pela pia todas as manhãs, quando tento inutilmente, adoçar aquele café que revela em miticismos lógicos, a previsão dos dias amargos. De pensar que algumas senhoras precisavam ler a borra para saber o que eu já sei no primeiro gole.
Mal sabem as formigas, que essa caridade involuntária é fruto tão somente das mãos trêmulas, da pressa indirecionada, da gravidade tão desproporcional para sonhos tão leves.
Há formigas na minha casa e não quero matá-las. Há muito espaço em mim. Há eco no meu silêncio. Assim como as formigas, sou o caos tolerável, o instinto previsível, o desespero calado. Um só entre os outros e a outra tão igual aos outros.
*Ouvindo "Horses in My Dream" da PJ Harvey*
enviada por thaisfairy
14/04/2005 12:47
Na pausa do grito, no apenas isto...
enviada por thaisfairy
31/03/2005 21:47
(in)quietação
Sempre haverá uma palavra engasgada na garganta, uma lágrima por rolar numa despedida qualquer, lindas canções excluídas dos repertórios. Acho que o som contido é o bastante para que se que arrisque a entoar agudos inalcançáveis e que se insista naquilo que pode ser possível com certo esforço...
Reticências, essas nos salvam do limite do que se quer dizer, assim como um quadro sem margens ou cálculos sem resultantes. Há um conforto no inacabado, como se assim prolongássemos à eternidades, as efemeridades munidas do desejo de resistirem. Como um entardecer púrpura indica com constelações lineares reticentes, que a noite é apenas uma pausa dos versos pintados nas abóbadas celestiais.
Há muitos que acreditam no subentendido, e de fato há várias sinais codificados em silêncio, mas não há uma palavra contida que não se inflame inquietada por vibrar no pleno entendimento externo. Nunca diremos o bastante, e se por ventura julgarmos os excessos da expressão, certamente discursaremos o motivo do tanto dizer. Não ouço redundâncias nas repetições, uma palavra nunca é igual a outra, e se por equívoco se enfadonham dos mesmos sons, é porque não entendem que a palavra busca no tempo e no espaço, a sua forma, o seu contexto, o momento de finalmente fazerem sentido. E para isso, as palavras se jogam exaustivamente às meras vibrações sensitivas, muitas se afogam no silêncio, algumas se alojam em compreensões e poucas envocam a sua resposta. Uma palavra dita num determinado instante tem apenas uma resposta, mas se ela vier num momento diferente, essa buscará outra réplica, mesmo qua a intenção seja a mesma de outrora, pois palavra de coração cheio é abafada e palavra de coração vazio é oca.
Assim, nada mais heróica é palavra que não teme o suicídio silencioso. Nada mais comovente palavra equivocada num parto prematuro. Nada mais vivo que a palavra expulsa dos lábios trêmulos.
Hoje quis dizer tudo quando te disse que não tinha mais o que dizer...
*Ouvindo "Wonderwall" na versão da Cat Power*
enviada por thaisfairy
28/03/2005 19:55
"The city sun sets over me"
Procurei teu número a partir da última página da minha agenda telefônica, só quando virei a primeira descobri que teu nome começa com "A". Esqueci-me da ordem do alfabeto, pois no meu dicionário tudo começava com você: Verbos, interjeições, objetos, onomatopéias, etc. Configurei teus gestos para solidificar o que se diluiu em mim, tratei de ciências para te ouvir, revirei no meu velho caderno da escola alguma fórmula física para te entender, nunca tive tanta certeza de números e te ouvi sussurrar que 2+2 poderia ser 5. Com tantas possibilidades no universo, por que o resultado é você? Deve ser porque o que há em mim se fragmenta em tudo que percebo. Só pode ser, mas você disse talvez.
*Ouvindo "This We're In" da PJ Harvey*
enviada por thaisfairy
04/03/2005 19:42
Letrado analfabeto
Quando um bem aventurado resolve cursar Letras, além de conhecer e se aprofundar na língua falada, escrita, suas origens e suas possibilidades, ele também está indiretamente abdicando do direito de pecar contra seu idioma. É uma espécie de seminário, subentendem que a partir do momento em que um seminarista aprende a dizer "amém", ele já é santo e simplesmente ignoram o fato de que até os santos, antes de serem canonizados, escondiam a carne sob a batina. Antes, usufruíamos do direito de cometer pequenos deslizes, afinal, justificávamos _ O português é uma língua muito complexa _ e recebíamos assim, a penitência de meros leigos mortais. Tínhamos apenas a obrigação de observar concordâncias óbvias: "Nós somos/ A gente é" e tomar cuidado com cacofonias gritantes: "Eu A vi hoje" (nota-se que o "a" dava todo o requinte da sentença). Mas uma concordância correta ou um "a" para um letrando é o pai nosso para um seminarista. Não tornamos-nos simples estudantes da língua, exigem-nos que sejamos a língua, não apenas que saibamos o idioma e suas regras, temos que ser idioma e supremos juízes. E não há uma só boa alma, que redima um tropecinho gramatical, por menor que seja, de um letrando. Ai de nós se não soubermos o que significa "jactanciosidade"!
_ Mas como você não sabe?! Você não estuda letras?!
E a cada dia desafiam-nos com palavras maiores, cheias de consoantes, trema e fonemas demoníacos e regozijam-se quando respondemos: "Hum, qual é o contexto?." Para quem não sabe, quando um letrando pergunta "Qual é o contexto" é uma maneira jactante de dizer "Eu não sei" e um último recurso de tentar adivinhar o significado da palavra desconhecida, por intuição.
Quem me escuta falando, não consegue deduzir nem por última opção, que estudo letras. Metade das minhas frases é constituída de interjeições e outra metade de gírias. Falo baixo e gaguejo quando arrisco uma palavra que está fora do vocabulário o qual costumo repetir viciosamente. Mas, assim como todo letrando, mantenho minha jactanciosidade e argumento que a língua é fluida e característica e que não podemos censurar a forma de cada um se expressar, ainda mais o português, que é uma língua tão tolerante com neologismos... Lorota! A verdade é que sou preguiçosa mesmo e não me exponho ao mínimo esforço de pensar, formar estruturas expressivas, raciocinar e sofisticar esse meu linguajar chulo. Pensando nisso, é que decidi criar o "Extraordinário e Inovador Dicionário: Português - Thaisês/ Thaisês - Português em versão pocket, com ele, você compreenderá que nem todo "tipo assim" é uma expressão comparativa.
A
Aêêê: onom. 1.Onomatopéia que demonstra excessivo contentamento. Ex.: Vai ter festa hoje à noite, ~! 2. Intenção de ridicularizar alguém em público. Ex.: ~, Você se ferrou.
Afê: interj. 1. Condensação e distorção da expressão "Ave Maria". É usada com a intenção de mostrar perplexidade. Ex.: Que roupa ridícula, ~ !. sin.: Nossa! (também derivada da devoção à padroeira do Brasil: Nossa Senhora).
Aôôô: onom. Variação do "Aêêê".
B
Beleza: adj. 1. Tudo bem; 2. Combinado; 3. De boa;
C
Cara: s.d. Pessoa com quem se fala sem definição de gênero (fem./masc.). ex:.Cara, adorei a sua saia. ver: Mano, Meu, Véio.
D
Diboa: adj. 1. De boa; 2. Sem problemas. sin: Beleza.
E
Eaê: contr. Contração de "E aí." sin: Eaí, Inhaí.
F
Fucfuc: S.m. Ato sexual. sin: Dar uma; tchacatchacanabutchaca.
G
Goiaba: s.m. Pessoa tosca, que costuma ser excluída ou zuada em qualquer evento ou situação que haja mais alguém além dela própria. sin: Tosco, banana, mole.
H
hoho: onom. 1.Risada sarcástica forçada a fim de enfatizar alguma ambigüidade com termos sexuais. ex:. O número do meu telefone termina em 69, ~...
I
Inhaí: gls. Termo pejorativo sutilmente homofóbico de "E aí". sin: Eaê, Eaí.
M
Mano: s.m. popular "Irmã(o)". Sem definição de gênero. Geralmente é usada quando o locutor está num leve grau de embriagez alcóolica. Ver: Cara, Meu, Véio.
Meu: s.m. sin: Mano. No caso, o termo não tem caráter possessivo, trata-se de um pronome impessoal.
Mó: pron. indef. Contração fonética de "maior" a fim de aumentar o grau de intensidade. ex.: Essa música é ~ triste. sin: muito.
N
Nem: adv. Não. ex:. Você vai pra faculdade amanhã? ~.
O
Ow: interj. ô. Interjação para chamar a atenção do receptor num diálogo, sempre é usado no começo da frase. ex:. ~ , você pode me arrumar um cigarro?
P
Pãtz: interj. Tcs, tcs, tcs, tcs.
Puta: interj. sin: Afê, nossa.
S
Sem essa: afir. Nem vem que não tem.
T
Tipo: interj. 1. ~ assim: Pronome comparativo. 2. O "tipo", muitas vezes é usado com uma espécie de "vírgula audível" ex.: Quando eu cheguei em casa tipo eu fui dormir.
Tosco: Adj. Mal feito, mal trabalhado. No caso, não tem nenhuma conotação pejorativa, visto muitas vezes inclusive, como virtude.
V
Véio: adj. 1. sinônimo de "meu" quando o locutor já bebeu doses cavalares de álcool.
Vixe: sin: Afê.
A propósito, antes que me apedrejem:
Jactanciosidade: S.f. Qualidade de jactancioso.
Jactancioso: (Ô). Adj. 1. Quem tem ou revela jactância. [sin. ger.: jactante].
Jactância: S.f. 1. Vaidade, ostentação, gabo. 2. Orgulho, arrogância, altivez.
(FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio Básico de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.)
*Ouvindo "Connection" da Elastica*
enviada por thaisfairy
11/02/2005 21:01
Anti-horário
"Nossa, já está amanhecendo!" ... A claridade me assustava, finalmente tinha encurtado a eternidade noturna àlgumas horas, dúzias de pensamentos, 3 cd's, um cinzeiro cheio, três capítulos de Virginia Woolf e um punhado de planos inertes. Hoje, a madrugada é inquietude confortável, leve açoite solitário quando paciente escuto as vozes que não me deixam dormir. A manhã me traz o alívio exaustivo com novas promessas apáticas, a mentira necessária para burlar a culpa de não acompanhar as pessoas nos pontos de ônibus, que se apressam para não se atrasarem ao trabalho, motivo de orgulho: Trabalhadores honestos, dignos de respeito, dormem cedo e acordam cedo, como deve ser. "Vão na frente, que eu alcanço depois" _ penso, e tantas pessoas passam por mim, enquanto me debruço na janela já inundada da manhã que vi nascer. As batidas ritmadas do martelo no apartamento em reforma acima, as buzinas dos carros na avenida congestionada em frente, a música do caminhão de gás embaixo, o sinal da escola primária ao lado, o aviso da estação de metrô atrás... Sons que circundam o cotidiano, sons que me isolam enquanto tento abafá-los com o meu travesseiro. E quem entenderia o cansaço matutino? E quem entenderia meu entusiasmo vespertino? E foi quando entendi que o tempo não são horas e as horas não são números e que minha vida não é atrasada, meu giro é que é anti-horário.
*Ouvindo "Angelene" da PJ Harvey*
enviada por thaisfairy
02/02/2005 03:09
Sentidos
As lacunas no blog não são justificáveis, falo que penso muitas coisas e pouco escrevo, para tapar buraco, vou falar o que meus sentidos tem captado nesses dias de silêncio:
O que tenho visto:
Sem emprego, sem dinheiro, sem cinema. O jeito é apelar pros velhos DVD's, ter algum fornecedor (amigo, namorado, vizinho, etc) é imprescindível. Aproveitei para ver e rever os clássicos, entre eles:
Os Pássaros: Revelo! Primeiro contado imediato com Hitchcock (não sei se o remake de Psicose conta alguma coisa, apesar de ser muito bom, não podemos esquecer que foi dirigido pelo Gus Van Saint). É só não ser um cabeçudo, deixar as exigências de efeitos-técnicos-superficiais de lado, dar um crédito pela audácia de um filme da década de 60, perceber a ironia sutil do cineasta, glamour dos atores clássicos, a atmosfera apocalíptica que o filme nos deixa no final e finalmente você perceberá porque falam tão bem desse tal de Hitchcock.
Laranja Mecânica: "E aí, meu drugue, tudo horrorshow? Eu estava com uma dor na gulliver, mas já estou dobby. Que tal plucarmos um auto e yeckate pela nochy? Depois pegamos umas devotchkas e fazemos um lubbilubbing..." Ultraviolence? Beethoven? Gangues? Futuro? Tratamento de choque? Manobras políticas? Está tudo ali, no épico Kubrickiano! Perfeito!
O que tenho lido:
Tive que dar uma pausa no Dostoiévski, para dar conta da pilha de livros que peguei emprestado:
A Casa dos Budas Ditosos: Monólogos fantásticos de uma velha devassa, que não poupa detalhes para contar sobre suas aventuras sexuais. Segundo João Ubaldo Ribeiro (autor do livro), a saga caliente foi datilografada a partir das gravações numa fita da própria protagonista e enviada a ele, quando recebeu o convite para escrever o livro da Luxúria da série Plenos Pecados (Editora Objetiva). A possível origem dessa história foi uma sacada brilhante, e se é verdade ou não, cabe ao leitor decidir. Para mim, se trata de uma manobra narrativa fantástica do próprio Ubaldo. Divertidíssimo! Esqueçam aqueles contos eróticos semi-pornográficos a la Sabrina, estamos falando de uma mulher extraordinária em todos os sentidos, desde suas experiências mais profanas até as sarcásticas cutucadas no moralismo humano.
10 Pãezinhos: Meu ingresso no mundo dos quadrinhos! Devo claro a um padrinho mui especial! O meu presente de amigo-secreto rendeu muito. 10 Pãezinhos é uma coletânea dos fanzines dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá. São histórias sobre relacionamentos, artes e até um quê fantástico-filosófico! Um detalhe muito legal nessas histórias é o cenário bem familiar, a cidade de São Paulo! (ex: Parque do Ibirapuera, São Paulo Fashion Week, etc) Ah sim, uma delas inclusive se passa numa casa alternativa bem conhecida por aqui: Funhouse. Site Oficial: 10 Pãezinhos
O Que tenho ouvido:
E tenho dito: Deus abençoe os programas P2P (E-mule, Morpheus, Soulseek)! Sem eles eu não seria nada! A minha doença Placebo vai muito bem, obrigada! Estou cada vez mais viciada na melancolia Placebiana de Brian Molko & cia. Aguardo ansiosa que os boatos sobre um possível show em março se confirmem. Mas falar de Placebo é covardia, veremos o que mais toca no meu winamp:
GRAM: Quem nunca viu o clip do gatinho? Quem nunca disse "a banda que parece com Los Hermanos"? Pois é, eu dizia isso antes de ouvir o cd inteiro. De fato a semelhança das duas bandas é inegável, ou será que a semelhança se deve a mesma dificuldade em classificar o tipo de música que ambas fazem? Se for pra comparar com Los Hermanos, diria que as músicas lembram mais as composições do Rodrigo Amarante. De qualquer forma, as duas são ótimas e enquanto descanso do meu Ventura, deixo o cd do GRAM rolar do começo ao fim! Excelente! Destaque para as faixas: "Você Pode ir na Janela" (do gatinho), "Troféu", "Reinvento" e "Vem Você".
Peaches: Tati Quebra Barraco em inglês? Ah não sei... Mas que é muito bom é! Batidas isoladas, eletro tosco, letras censuráveis, gemidos, etc. Baixei os dois cd's, "The Teaches os Peaches" e "Fatherfucker", entre os dois, fico com o primeiro! No segundo ela até dá uma arriscada numa coisa mais rock, cantando inclusive uma música do Iggy Pop "Kick It", mas o barato da Peaches são mesmo aquelas batidas fortes e isoladas, efeitos de tecladinho 80's! Seguindo na linha eletro citaria: "Ficherspooner" (mais pesado e agressivo), "Cansei de Ser Sexy" (Nacional) e até "Viva La Fete" (em francês, uma coisa mais blasé-pedante rs)
O Que tenho acessado:
ORKUT: É uma maldição! Subestimei o poder viciante da coisa e lá estou, filiada em mais de 300 comunidades e com um pouco mais de 100 "amigos", dos quais eu já travei contato com no máximo 30. Percebo que ter "amigos" no Orkut é que nem comment em blog, o povo pensa que é dinheiro e quanto mais melhor. Então bora, quem quiser me achar por lá, me procure por: Thais Monteiro. AHAHAHAHAH... como sou tosca!
Recentemente, li um artigo dos "Dois Neurônios" no caderno Mais da Folha, no qual ensinavam como reconhecer alguém no Orkut. Não me lembro exatamente do que dizia, mas darei meus pitocos aqui:
About Me (Espaço livre para você se descrever): Geralmente a pessoa começa fazendo um doce, falando da dificuldade em se descrever, mas o interessante é que no final o sujeito descobre milhares de qualidades em si mesmo: "Sou sincero(a), amigo(a), companheiro(a) e divertido(a) :)"
Relationship Status (lugar pra você colocar se está compremetido(a) ou não): Há uma opção "Open relationship" (Relacionamento Aberto) ou "Open Marriage" (Casamento Aberto), se por acaso você esbarrar com essa descrição, pode ter certeza que se trata de uma pessoa que quer dar uma de ripongue, descolada, relacionamento moderno e essas coisas... ahã, veremos na prática bem!
Here for (O que você está fazendo ali criatura): Na opção Dating (encontros) há como especificar se você quer encontrar homem ou mulher, caso não esteja especificado, indica que o que vier tá valendo!
Ethnicity (Etimologia- Branco, Negro, oriental,etc): Se por acaso estiver "multi-ethnic" (multi-étnico) quer dizer que o pobre diabo é só mais um com cara de todo mundo.
Political View (Visão Política): O sujeito que coloca "Depends" (depende), geralmente está andando e cagando pra política, mas não quer transparecer a indiferença.
Sexual Orientation (Orientação Sexual): Se a opção não existir no profile, é um forte motivo de desconfiança! Se a opção declarada for "Bi-Curious" (Bi-curioso), indica que a pessoa ou: Ainda reluta em admitir sua verdadeira orientação sexual; ou: Tem vontade, mas nunca vai ter coragem; ou ainda: Quer dar uma de cool, mas que ainda caga de medo com as opiniões alheias.
Fashion (Como você se veste): Se no meio das descrições você encontrar "Contemporary" (contemporâneo), pode ter certeza que a pessoa veste a calça Jeans e a camiseta polo de todo dia e ainda periga rolar um sapatinho mocassim e uma pochete.
Living (Mora com...): O infeliz que colocar "Party every day" (Festa todo dia) é o goiaba mais goiaba do mundo, que provavelmente tem vergonha de admitir que ainda mora com os pais e divide o quarto com o irmãozinho caçula.
Sports (esportes): Ainda me assusto com a quantidade de pessoas que colocam "SEXO", o pior ainda é quando colocam no Passions (Paixões). Digamos que se trata de uma pessoa que passa muito mais tempo na internet (ou no banheiro) do que as pessoas normais.
Ah! Ter mais números de comunidades do que números de contatos (como é o meu caso), indica que a pessoa não tem mais nada que fazer da vida e nunca vai responder ou ler nenhum tópico proposto da comunidade.
Onde estou indo:
Sem dinheiro não dá pra fazer muita coisa, mas a gente sempre dá um jeito!
DJ Club: Eita lugarzinho bacana! Além de tocar 80's (New Order, Joy Division, The Cure, The Smiths, etc), rock alternativo (Franz Ferdinand, Libertines, Placebo, Sonic Youth, Strokes, The Rapture, etc.), ainda é free pra mulheres até 00:30 de Sábado! O pessoalzinho é mais receptivo, o que geralmente não acontece na maioria das casas alternativas de São Paulo City.
Boteco do Japonês: Uns falam que é chinês, outros falam que é coreano, enfim, o barato é quando ele oferece uma "Blahma". Quase na esquina da DJ Club, o boteco dá o combustível necessário pra quem é movido a álcool, mas não está disposto a desembolsar 5 mangos por uma latinha de cerveja. Pela bagatela de R$ 2,70 você pode desfrutar de uma Blahma gelada e assistir novela na televisão pendurada no canto.
O que tenho sentido:
Mudanças! Desfruto dos últimos dias de ócio antes da facul começar.
Romance... ops... Estou como a Symony (ex minazinha do Balão Mágico) na Casa é Nossa (ex programa do Clodovil): "Não falo da minha vida pessoal", mas conta tudinho se pagarem no programa "Auto-Controle" do TOM (ex cana-brava).
Afê, já deu né gente?! Desgastou...
*Ouvindo "Can't Stand Me Now" dos Libertines*
enviada por thaisfairy
27/01/2005 03:17
"Sou feia, mas tô na moda"
O que? Funk pancadão na moda? E nenhum indie xingando? Ahhhh... entendi! É a nova onda se apoderando da galerinha cult de São Paulo. Não sei o que se passa, mas de repente falar que adora Tati Quebra Barraco (mesmo com um cinismo escrachado na declaração) virou sinônimo de ser cool, desencanado e com um senso de humor a flor da pele. Pra que falar que odeia funk? Seria chutar cachorro morto? Então diremos que gostamos, só pelo sarcasmo intelectual! É isso, pronto, dançaremos rebolando e até colocaremos o dedinho no canto boca enquanto requebramos ao som do Bonde do Tigrão, afinal, temos a capacidade de discernir o que é ruim, não colocaremos esses versos de putaria ritmada nos nossos aparelhos de som refinadíssimos, que repetem exaustivamente as últimas bandas de Nova York e de Londres. Mas se caso nos perguntarem, adoramos funk! Daremos risadas, na fila de uma lounge qualquer nas ruas que cruzam a Av. Paulista, enquanto cantamos o que nunca teríamos coragem de repetir em nossos lares. Gostar do trash está enraizado na nossa geração que cresceu na década de 80/90. Isso, somos engraçadíssimos! Somos feito sob encomenda, somos uma cópia genérica do que achamos que se passa na cena alternativa Nova Yorkina/Londrina... isso! Somos a galerinha da cena, mas alto lá, sabemos valorizar nossa cultura exaltando com escárnio a escória cultural brasileira, ahã, isso mesmo! Pena que a nossa forma de ser original é a bola da vez, que até o nosso cinismo e nossa "contracultura" é sempre o mesmo modismo irritante! Pena que precisamos escutar alguém ousar dizer que gosta para gostarmos... A coisa vai perdendo a graça e vamos nos moldando perfeitamente na carapuça daqueles que tanto subestimávamos, a massa.
*Ouvindo "Where is My Mind" do Pixies*
enviada por thaisfairy
17/01/2005 02:19
Tempos de Morangos
A polpa muda o gosto: Doce, amargo, podre.
A casca muda a cor: Verde, vermelho, preto.
A carne muda a textura: Duro, mole, bichado.
Sou o caroço da fruta da estação.
Caroço seco, caroço estéril, caroço pedra.
*Ouvindo "Blue American" do Placebo*
enviada por thaisfairy
14/01/2005 20:14
Ditadura Cibernética
Geeeeente, não acredito! Esse blig tá de sacanagem comigo, afff... só pode! Baixou a censura e o pudor no blog mais furreco da internet! Lendo o comment da Elis (Lírio de Vale), notei uns caracteres inteligíveis, deduzi por mim mesma, me baseando no contexto do comment que a palavra censurada era: PAU. Fiz o teste e batata! Agora me fala, com que direito esses merdas censuram as pelavras no MEU blog? Voltamos no tempo, baixou a AI-5 na porra do blig. Bem, foi feito o meu manifesto e puuutz, fiquei puta da vida com isso! Eles não têm esse direito, se alguém quer xingar meu blog, cabe a mim decidir censurar ou não. Pronto casseta, falei, agora vou me esconder por um tempo antes que eu seja sequestrada e torturada... humpf! Quanta petulância! Vai, pode tirar o meu blog da Seleção do blig.. tô pouco me fudendo! :p
*Ouvindo "Every You, Every Me (acoustic)" do Placebo*
enviada por thaisfairy
07/01/2005 05:29
Pequenas Torturas
Quando somos crianças, temos noção de muitas coisas e aperfeiçoamos a principal atividade infantil, não, não me refiro a crescer, isso a própria natureza já se encarrega, não precisamos fazer nada além de respirar e nos mantermos vivos que o próprio metabolismo já faz o favor de espichar os ossinhos, não, também não é brincar, a brincadeira, pra quem não sabe, é só uma imitação proporcional da vida adulta, me refiro a aporrinhar a vida alheia! Ah, isso sim, isso as crianças sabem como ninguém, quando se cansam de aporrinhar seus colegas, resolvem atacar os adultos com estratégias friamente testadas e calculadas de deixar qualquer torturador chinês de queixo caído. Há os que defendem, lembrem-se que há advogados até para o diabo, e no caso, os psicólogos servem muito bem de mediadores e com eles não desejo ser a promotora, o que?! Contestar Freud?! Eu não estou tão louca assim! Mas de todas medicinas possíveis, ninguém (nem os pediatras) explicará tão bem os efeitos de um mega- ultra- surround- berro- birrento- sound como os otorrinolaringogistas! O chantagem sonora, é sem dúvida, a mais nociva a qualquer ser adulto ouvinte, e me questiono se os surdos estão a salvos das vibrações neuro-explosivas de uma criança que não conseguiu o que quer e usa sua arma mortal para obter suas necessidades vitais. Vá a uma loja de doces ou de brinquedos e entenderá o que falo, mas alerto o perigo da audio-exposição. Para manter seus tímpanos e sistema nervosos ilesos, reproduzirei o processo:
_ Manhêêê, eu quero esse super-homem! Compra vai...
_ Mas filho, esse boneco está 200 reais e além do mais você já tem esse em casa, que incluse você queimou com o isqueiro, lembra?
_ Ah mãe, por isso mesmo, ele não resistiu a própria visão de raio-x e esse aí ó, tem a capa amarela... _ Nesse instante o menino pega a embalagem, disposto a não soltar mais.
_ Filho, deixa mais pra frente que a mamãe compra, seu aniversário já tá chegando mesmo, antes-de-ontem seu pai já te deu o posto de gasolina, né?!
_ Eu não gosto mais daquele posto! Eu quero o Super Homem! Vai mããããe, por favor, aí no meu aniversário você não precisa me dar mais nada!
_ Não (Plim, palavrinha mágica que desencadeia o processo) filho! Deixa mais pra frente que depois eu compro, hoje não, só vim ao shopping pra trocar as cortinas que não combinaram com a cor da parede, vamos que a mamãe tá com pressa, até te compro um Mc Lanche Feliz, que tal hein?!
Os olhos do garoto já lacrimejam e sua voz já se eleva de forma considerável:
_ Eu não quero o Mc Lanche Feliz! Eu quero o Super Homeeeeemmmmmmm! Vai mãe, por favor, por favor, eu não te peço mais nada!
_ Vinícius, HOJE N-Ã-O! Vamos embora, vamos!_ A mãe o segura pelo braço, o menino se solta e solta tudo que pode haver em suas cordas vocais:
_ Hãããããããããããããããããããããããããããããmmmmmmmm... _ A primeira sirene é dada (é hora de fugir, se abrigar em qualquer lugar), e no intuito de poupar mais suas forças para o grito, ele se joga no chão, e lá vai a segunda ainda mais forte:
_Hummm Haaaaa ÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ aaaaaaaaaaa Hmmmmmmmuh... _ e assim a sirene se reproduz incansavelmente e quando pensamos que a sua intensidade diminuirá na próxima, eis que os agudos estridentes se superam. Quando finalmente a mãe, incumbida pelos olhares agoniados alheios, resolve tomar uma atitude, o menino se alimenta para o berro final que me impossibilita de reproduzi-lo com meras onomatopéias.
Cansado, vencido pelo fracasso, o menino chora apenas, e a mãe tenta sem sucesso, imbutir-lhe o sentimento de culpa:
_ Tá vendo?! Olha que feio, um rapaz como você fazendo escândalo, tá todo mundo olhando... tcs,tcs,tcs,tcs...
Mas até as bestas das savanas africanas se cansam, e o menino vendo-se derrotado, exige então, qualquer coisa para compensar o seu esforço enquanto é arrastado para o estacionamento:
_ Manhêêê, e o Mc Lanche Feliz?!
Trimmmmm...
D. Pedro II, quando foi apresentado a mais nova invenção do escocês Graham Bell, se assustou indagando:
_ Ora pois, e isto fala?!
Salve salve meu imperador, mal sabes que além de falar, o telefone tem uma utilidade secreta muito comum entre as crianças: APORRINHAR!
E para me redimir das acusações proferidas nesse post, digo que fui criança, e como todas elas, eu descobri a potencialidade maléfica que este aparato comunicativo poderia proporcionar a uma criança sem ter muito o que fazer. E como todas outras aporrinhei açogueiros, pedi pra falar com o Sr. Pires, averigüei carros cor-de-gelo nas esquinas das minhas vítimas, etc. Para tal ação, há é claro um manual auxiliar imprescindível: A LISTA TELEFÔNICA. Pude então, melhorar e sofisticar os enredos das aporrinhações. Por exemplo, liguei para todos os Romeus procurando suas respectivas Julietas e vice-versa.
Mas a "satisfação infantil" são duas palavras que se anulam, não contrariaria tal oxímoro simplesmente me cansando de discar, aporrinhar, desligar, rir até perder a graça e procurar outro infeliz anônimo interlocutor para alimentar a sádica atividade comunicativa. Eu queria conversar, fazer uma pesquisa com as mais prováveis vítimas do mercado, me ocorreu assim, a idéia originalíssima de ligar para o último nome da lista, prestar até uma assistência psicológica ao pobre diabo que nasceu de uma família do sobrenome Z-alguma coisa. Claro que não o procuraria pelo sobrenome, até porque, nem sabia como pronunciá-lo. Tudo que me lembro, era que o último dos últimos se chamava Santana:
_ Alô?!
_ Alô, eu gostaria de falar com o Santana por favor?
_ Hummm, com o Santana?
_ Isso mesmo!
_ Olha bem, estamos equipados com um sistema anti-trote e vou chamar a polícia se você ligar de novo!
_ (...)
(tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu)
A minha imunidade estava quebrada por um aparelhinho pouco difundido na época: A BINA TELEFÔNICA! Uma pessoa que possuísse uma bina, exigia respeito. A partir de então, ponderei e tive a paranóia de que todas as casas tinham resolvido adquirir o mais novo anti-aporrinhações, quem sabe o tal Santana sugeriu a todos da lista o seu aparelhinho mágico?!
Quando disquei, mal sabia que Santana poderia ser um nome feminino ou tampouco de Santa. Em verdade, em verdade vos digo: Bem aventurados sois os últimos da lista, pois as crianças demoníacas, eis de endireitar.
Esse foi o meu último trote.
Nota: Todos os nomes são fictícios, com exceção do(a) pobre Santana.
*Ouvindo "Buy Her Candy" do Sleater-Kinney*
enviada por thaisfairy
02/01/2005 20:08
Contínuo
Meu estômago começou a borbulhar, meus dedos estavam inquietos, uma onda passou por mim e eu tive certeza que era hora de acabar com o silêncio nesse blog agora. Quis gritar, quis cortar as lacunas com um barulho ensurdecedor, mas para certas coisas é preciso cautela, para não assustar. É como quando você está no escuro, e seus olhos estão desprotegidos, não é sensato acender holofotes para dissipar a penumbra, a iluminação tem que ser lenta e gradual, para não ferir as vistas vulneráveis. Então, vou abrindo a janela devagar, sibilando as palavras que me faltaram durante esses dias. Me relutei quanto a idéia de fazer uma retrospectiva, mas não posso começar o ano sem virar um poquinho a cabeça. Penso nesse blog, que foi a porta para que eu conhecesse pessoas incríveis e hoje sou grata a essas palavras jogadas às brisas cotidianas, pois em algum lugar alguém estava num moinho de vento, esperando por elas. Hoje não sou tão só e se repito que sou com tanta pieguice, é por saber que sempre há alguém a ser encontrado. Eu não poderia ser quem sou sem as pessoas que conheci por aqui, pessoas que é impossível não se tornarem necessárias, pessoas que é impossível não amar. Apesar da eterna melancolia que tanto tento explicar, da corriqueira depressão rasa e contínua, estou muito bem e tenho mais sede ainda de viver. O novo ano promete ser cheio, finalmente começarei a faculdade de letras, o que vale ser mencionado! Tenho agora, diretrizes, setas, cartas que revelam meus passos e mapas que indicam o meu caminho. Encontro pessoas que me refletem, amo-as e automticamente amo-me, e isso me faz muito bem. Vejo-me muitas vezes como um pai severo, eu me cobro, eu me analiso, eu me desmonto, eu me disseco friamente e espero impaciente os resultados de mim. Preciso ser mãe também, preciso me amar com ternura, preciso me abraçar calorosamente, preciso cuidar de mim com paixão, preciso aceitar os erros e me incetivar com a crença verdadeira de quem sabe tentar mais uma vez e acredita que pode conseguir. Meus irmãos são minhas variações, o resultado da minha criação. De modo simples eu queria começar esse ano, com pequenos detalhes, alegrias despreocupadas, que chegam de modo gratuito. De modo simples eu quero dizer o quanto o fato de viver me alegra, o quanto cada respiração me enche de graça sutil, o quanto cada lágrima é necessária para entender verdadeiramente os sentimentos que transbordam de mim. Preciso agora é de verdade simples, preciso um pouco mais do senso comum, preciso é de probleminhas solúveis, palavra fácil que não exija consultas no dicionário. Quero alegrias baratas, quero telefone me chamando quando escutarem uma música que faça lembrar de mim. Eu quero querer o que já tenho.
Pra ser igual, desejo um Feliz Ano Novo a todos que acompanham essas palavras tortas, que espero nunca se endireitarem, palavra inacabada é palavra que pede outra, é palavra que não acaba mais. Quero deixar-me então nas reticências, pedindo para que vocês me concluam...
*Ouvindo "You Had Time" Ani Difranco*
enviada por thaisfairy
14/12/2004 16:48
Desemprego
Me senti estranha ao acordar essa manhã, eu não era uma barata, eu não estava sendo processada ou tampouco estava no país das maravilhas. Eu apenas queria escrever. Queria escrever uma poesia, com métricas e rimas... aprisionar logo a minha prosa livre, em versos. Mas não sei do que um poema é feito, para mim, poema só é bom depois de pronto. Não desmistifico a essência do poema além de seu formato vertical, sou muito de ver sabe. Logo desisti, o poema mais uma vez não existiria. Disseram-me que poema tem que ser simples, sem muitas frescuras, mas ora... aí estaríamos falando exatamente do que percebo, um texto na vertical somente. Preciso encontrar a fórmula do poema, preciso logo descobrir do que ele é feito. Mas não me deixaram a receita secreta, além de como estruturá-lo na vertical. O que queriam tanto alcançar? Eu não sou engenheira de palavras e sentidos, sou sim, uma desempregada, desesperada por qualquer palavra que me empregue, que me alimente. Eu não quero a palavra, quero apenas o seu sentido, que aponte em qualquer direção dessas linhas. As palavras verticais não me sustentam, despencam logo sobre mim. Quero qualquer palavra ao acaso. Quero qualquer monólogo distraído. Me encaixo no perfil da vaga palavra, que me oferece toda interpretação possível. Quando posso começar a rimar?
*Ouvindo "Sugarcube" do Yo La Tengo*
enviada por thaisfairy
08/12/2004 18:27
Ofício de Escrever
Eu gostaria de compartilhar a última conclusão a que cheguei: Não há criatura viva mais egoísta e egocêntrica do que os escritores! Ouso generalizar tal afirmação, com base nos poucos, que me mostraram claramente, seu inconveniente delito crônico.
Explico-me logo, levantarei os argumentos leves com urgência, pois os escritores que possivelmente podem ler isso, provavelmente se aproveitarão das verdades inacabadas para concluirem si mesmos, utilizando de forma indevida as lacunas dos fatos. Pois bem, assim como um poeta usa o céu e a terra para refletirem suas respectivas imagens (isso quando se dão ao mínimo esforço de não serem diretos), buscarei outras referências para ressaltar a gravidade da minha conclusão.
Imagine um médico, que vivesse de medir sua própria pressão sangüinea, que averiguasse de hora em hora, periodicamente, seu nível de glicose no sangue. O estetoscópio lhe proporcionaria a nona sinfonia de Beethoven, sua ópera se limitaria a palavra "trinta e três" (o "trinta" pelos tenores e o "três" pelas sopranos) e sua poesia à receitas médicas e auto- recomendações. O prazer de sua leitura se deveria aos compêndios de anatomia humana e seu jornal diário seriam as bulas das medicações. Sua angústia seria o eterno resfriado provocado por banhos quentes e exposições intencionais à brisas frias, a fim de testar e estimular seu sitema imunológico a ser mais resistente e eficaz. Exaltaria seu passado, oferendando aos seus ancestrais,os antigos curandeiros, ervas homeopáticas. Restauraria sua espiritualidade nas medicinas alternativas, em rituais de magnetização e se aproximaria mais de Deus se auto-flagelando nas sessões de acupuntura. Alimentaria-se somente do que seus gurus, os nutricionistas, julgassem prudente e se embriagaria das águas minerais das mais puras fontes. Seus pacientes seriam apenas inspirações, das quais se utilizaria para se precaver de moléstias desconhecidas. Sua morada seria os consultórios e seu templo, as grandes clínicas médicas. Sua política, seria o capitalismo das avançadas parafernalhas e tecnologias médicas. Passaria suas férias fazendo trilhas endoscópicas pelas sendas digestórias. Traçaria seu mapa-astral, nas linhas de seu eletro-encéfalo-grama e marcaria o tempo com seu marca-passo. Suas paixões, nada mais seriam do que impulsos nervosos e seus filhos, a confirmação de seu fértil sistema reprodutor. Acalentaria suas fragilidades emocionais em monólogos no seu divã e sua vaidade seria nutrida de comésticos dermatológicos. A vida em suma, seria a saúde, e a saudade esclareceria, como esclarece a todos, a inutilidade de seus esforços em vencer o tempo.
Assim é, um escritor, que só vive de si mesmo, que relata no ferro e na areia, a mesma profundidade de sua própria alma. Troque seu ofício, e verá um advogado que se acusa só para se defender, um contador que lucra somente para acessorar suas próprias perdas e ganhos, um padre que questiona sua fé só para poder tornar a se doutrinar. Um escritor, que escreve sobre o escritor, que usa outras referências para explicar o escritor, que aponta seus delitos e volta ao mesmo paradóxo da metalinguagem, a sua linguagem em outras imagens, só para ver seu reflexo, e se aproveita da sua própria lacuna e do vacilo da terceira pessoa para iniciar-se e encerrar-se na palavra eu.
*Ouvindo "Sleeping With The Ghosts" do Placebo*
enviada por thaisfairy
01/12/2004 02:00
Síntese completa
Digo, para não esquecer. Relato, para justificar. Preencho, para não perder. Ausento, para não encher. Não quero poema, quero poesia. Escrevo, para existir.
Aqui estou, não sei até quando, mas estou. O tempo nunca foi tão abstrato, o tempo todo que há, é só agora, e agora não há mais. Foi, e não vejo mais. Se esqueço, algo morre. Digo e tudo vive. Joguei água sanitária na roupa puída, gasta, as manchas me deram uma nova roupa. Joguei água quente no quadro fresco, e esse é o meu retrato.
Revelo, para aceitar. Crio, para renovar. Falo, para repetir. Continuo, para não voltar. Peço perdão, para tentar. Não quero música, quero canção. Canto, para transformar.
É engraçado a palavra "lá" ser tão curta, pois para mim, seu significado nunca esteve tão longínqüo. Para mim, o "lá" só vale na escala do sol, pois sua distância equivale aos astros, tão alto quanto as notas que a minha voz baixa e trêmula não consegue alcançar. A palavra "lá", deveria vir sempre acompanhada de "longe", ainda melhor seria se as duas tivessem um espaço a mais: "Lá........................Longe"
enviada por thaisfairy
19/11/2004 03:40
Gravidez do mundo
A melancolia é a cólica diária da ovulação de pensar. Fêmea são os pensadores, que desfrutam do período fértil para copularem com os fatos machos. Há sim, um longo processo antes da gravidez e por fim, do parto. Os pensadores, antes não pensadores, eram somente observadores juvenis, observavam e repetiam o que viam, nas bricadeiras inocentes. Observar e repetir era divertido. Mas o espírito cresce no processo natural, e logo a menarca não tardaria a acontecer, acontece, e o observador se torna também, um pensador. A timidez, as primeiras desilusões com os fatos são parte da puberdade. Quem pensa, por natureza, quer criar. Mas as fêmeas, sabem que não é qualquer fato que as atraem. Guardam seu bendito é o fruto, censuram os estímulos, tomam atroveram de indiferença, se distraem com fatos amigos. Há também poderosos anti-concepcionais de trivialidades cotidianas, mas fêmea é sempre fêmea, e aqui acolá, a cólica voltará a fustigá-las, lembrando-as de seu propósito ingrato. Injusto é, o mundo que vive de fatos, mas elas bem sabem de seu poder, e que fatos só são fatos, pois elas assim o conceberam. Muito comum é fêmea gerar fêmea, mas muitas, preferem casais, gostam de aproveitar toda sua capacidade reprodutiva, e deixam na terra, por herança, outros pensadores e fatos.
Mas dentre todas as fêmeas, a mais triste, é aquela que se prostitui para os fatos, que os usam para satisfazerem suas necessidades intelectuais, que buscam nas enciclopédias-gigolôs, a sua inseminação artificial. Nunca amarão o fato nú, maquiarão os fatos com blush e batom. Mas sempre fêmeas, sempre mães, olharão para si e para os fatos, com um dolorido olhar materno e por vez um pouco estéril.
*Ouvindo "It Could Be Sweet" do Portishead*
enviada por thaisfairy
16/11/2004 21:21
Aquário vazio
Caminho pela casa vazia, procuro nos corredores alguma direção certa. Está tudo tão quieto. A sala nunca esteva tão grande, a claridade mal é capaz de penetrar o cômodo. Ligo o computador, desligo. Ligo a TV, desligo. Ligo o rádio, desligo. Nada é o bastante para entreter a solidão corriqueira. As lembranças ganham efeitos de flashback de um filme dos anos oitenta, com direito a imagem distorcida, névoa e eco. Quando a onda passa, me encontro jogada no sofá. As cortinas fazem a única ação da cena, vão e voltam, encobrem e revelam o vazio do meu rosto apático. Todos trabalham, é importante trabalhar, deve ser, eu acho. A porta está lacrada, não há mundo fora disso aqui, não há mundo para mim agora. Dói pensar nos sorrisos que precisarei fingir lá fora. A beleza está tão alheia hoje.
Sempre quis ter um cachorro, mas nunca foi possível. Então, para remediar a ausência de um animalzinho, eu ganhei um aquário. Certo dia, mergulhei a minha mão dentro do aquário, mas logo tirei, pois tive medo e angústia de sentir as escamas dos peixes. Observava-os impaciente. Batia no vidro, para criar algum vínculo e eles nadavam assustados, mas logo fui repreendida, me disseram que bater no vidro do aquário causa stress aos peixes.
Assim é a vida que vejo de longe, foi a única que foi possível ter. A observo pela janela, bato no vidro para fazer contato, quero pegá-la, mas tenho medo de qual consistência terá, não posso sufocá-la, não posso estar lá... não posso me afogar. Ninguém amará tanto algo que não pode ter, que não pode pegar, que não pode estar, que não pode sentir.
Assim é o meu amor, assim é o amor que me foi possível ter.
LIBERDADE
O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.
(Carlos Drummond de Andrade)
*Ouvindo "Sentimental" do Los Hermanos*
enviada por thaisfairy
11/11/2004 16:57
Antigos espíritos das trevas, transformem essa forma decadente em Mum-haaaaa...
Dias e dias sem pisar pra fora de casa! Hibernação, ócio destrutivo, retiro corporal, enfim, perguiça! Salve salve Macunaíma!
Continuo dedicando meu tempo-livre, para revolucionar a ciência, negligenciando comida para o meu peixinho mcgyver, a fim de criar a tal sub-espécie de betas fotossintetizantes, Felícia e Dr. Monreau não fariam melhor. Lembro-me quando ouvi um caso de um casal (humano) que se alimentava de suco e sol somente e defecavam duas bolinhas por ano (tipo fezes de coelho)... imaginem, duas bolinhas por ano! Seria a falência das indústrias de papéis higiênico!
Mas desconfio que o sucesso da minha experiência revolucionária está sendo compremetido pela minha mãe, que sempre se compadece do bichinho. Hoje para meu espanto, a flagrei conversando com o peixe, fazendo aquela voz fininha... Será mesmo que os bebês e animais tem uma sensibilidade maior para agudos ensurdecedores? Hum, outro tópico para pesquisar. Quando a interroguei o por quê do monólogo com o peixe, ela me respondeu: "Os animais sentem as vibrações!"...Aff, também com aquele agudo, até surdo! Me inspirarei nos golfinhos e na Tetê Espíndola para dar início a essa pesquisa interessantíssima... oh! Hã?! Sim sim.. é falta de assunto + bloqueio criativo...
Turn (Fuck) off MTV!
...continuando. Nesses dias de extremamente produtivos, pude acompanhar a programação da tv brasileira. Passo tardes a fio com a minha mãe assistindo programas de dona- de- casa- que- fica- no- portão- de havaiana- fofocando- com- a- vizinha- e- gritanto- os- "fios"- que -empinam- pipa- na- laje. Tô afiada nas fofocas menina! Clodovil, Palmirinha, Ana Maria Braga, Astrid, etc. estão íntimos! Eu adoro tanto os tais programas que na primeira oportunidade, dou uma sapeada nos outros canais. Afff, os monólogos intermináveis do Clodovil, são para mim, tortura chinesa! Aproveito então, pra dar uma olhada na MTV e a cada dia fico mais perplexa com a inutilidade da programação.
Um canal que se intitula Music Television, deveria no mínimo, falar de música! Estou certa?! Mas não, a MTV parece só contratar estagiários de comunicação com idéias inovadoras, para conscientizar a galerinha "super esperta e antenada".
Vamos lá, milhares e milhares de propagandas sobre o "sexo seguro": "Converse com seus amigos, professores e familiares sobre o assunto".. ahã, tá certo, a campanha é válida, mas puuuutz, chega uma hora que cansa, né?! Dá vontade de fazer o extremo oposto só pra contrariar tanta encheção de saco, psicologia inversa sabe?! Freud explica. Tá bom, tá bom.. entendi o recado, cadê a música? Então, ainda no intervalo, intercalando a massacrante campanha, vem as propagandas NON-SENSE de 5 minutos, ora ora, quanta criatividade!: "Close numa torneira, afasta, close na torneira, afasta, close na torneira, afasta (...) então finalmente o logo "MTV" no cantinho da tela"... Cadê o Garoto Enxaqueca, que nos divertia com sua rabugentice nos intervalos dos programas? Tá bom, afinal, os estagiários precisam treinar seu genuíno senso artístico!
Vamos aos programas:
Meninas Veneno- Hã?! Um monte de gente discutindo o caso da menina, que tem um namorado que ainda fala com a ex?!
Cliperama- Nossa, muito interessante testar nossos conhecimentos extremamente relevantes sobre as bandas: Em qual ano o Nirvana lançou o primeiro single? A- 1856 B- 1990 C- 1999 D- Foda-se, eu preciso saber disso pra gostar da banda?!
Control Freak- Quando finalmente acontece o milagre de Deus, de um bom clip ir para a disputa, o Eminem sempre acaba ganhando...
Dance o Clip- Afff, esse eu chego a assistir pela tosqueira deliberada. HAHA, ver os pseudo-machinhos requebrando Beyoncé é o máximo... 0_o blé!
Família MTV- É falta de artista, ou eles realmente acharam que seria interessante ver a vida de um vj?! A espontaneidade da coisa é tanto, que eles visivelmente decoram o script de suas vidas inventadas!
Hermes e Renato- Raramente eu consegui rir. A tosquice é tão forçada que fica sem graça!
Mega Liga de Vj´s Paladinos- Foi o fim da picada! Não tem graça, a dublagem é muuuito mal feita! O que?! Querem transformar os vj´s em estrelinhas?! Adianta não ow, o carma de vj da MTV é fazer sucesso, chamar atenção da mídia, ser contratado por um canal VHS pra fazer um programa cagado fadado à falência, e com sorte, voltar com o rabinho entre as pernas. Vide: Astrid; Sabrina Parlatore; Gastão ( rara exceção, pois o MusiKaos era muito bom, mas carma é carma,o programa não foi pra frente); Thunderbird; Cazé; Dr. Jairo (o bundão); Babi; Fernanda Lima e por aí vai....
Missão MTV- Que lixo! Eu duvido que aquela modelo, com a simpatia forçada, realmente resolva tudo sozinha!
Ponto Pê- Poderia ser interessante, se não reprisassem em todos os programas, toda a videografia do Chris Isaac, Britney Spears, Beyoncé, Christina Aguilera e Madonna.
Rockgol- O Paulo Bonfá e Marco Bianchi realmente são engraçados... Mas o programa não deixa de ser uma mesa-redonda (abundante nas depressivas noites de domingo), o programa poderia muito bem ser encaixado no Sports MTV, afinal... o canal era pra ser de música! E um único programa sobre esportes bastava... afff, ainda mais futebol! ODEIO!
Vj´s Em Ação- Ah, corrijo! A Mega-Liga não foi o fim da picada (foi quase), dessa vez a MTV se superou. Esse programa sim foi o fim da picada! Um monte de VJ´s numa conversa tão inteligível quanto uma bate-boca num balcão de um boteco qualquer. Agora me diga! Alguém gostou daquilo?! Me senti uma goiaba excluída e ignorada numa roda de conversa. Afff, a Marina Person inflama meus nervos, só a bonitinha quer falar e estar certa.. ahã! Ela pode ter bom gosto pra filmes (o mínimo que se pode exigir de uma pessoa formada em cinema), mas é uma chata de galocha! Tive que desenterrar a gíria para exprimir todo o desprezo!
Buzzina MTV- Eu não suporto o Cazé! Ele tem um quê de Jô Soares do tipo: "Eu sei tudo e não ouse dizer o contrário". E as discussões são absolutamente infrutíferas!
Daniella No País da MTV- O Making off da inutilidade! Olha só, nunca imaginei que tinha aquele fundo verde nos estúdios.. tcs,tcs,tcs. D+
Não vou falar do disk e Top 20... é apenas o feedback da lavagem musical que a MTV emite à sua galerinha esperta e antenada. Mas pelo menos, tem música! Às vezes precisamos lembrar do propósito do canal, certo?! Outros programas bundas, por graça divina, afundaram: Fica Comigo (Versão Rosa do "Quer namorar comigo?"); Pé na Bunda (Versão capenga de Dismissed); Neurônio (Tudo aquilo pra ganhar uma medalhinha?!).
No dia que tirarem o Lado B do ar (o único programa realmente bom), eu jogo uma bomba ali.. ah jogo, esperarei o exato dia que os filhos-pródigos- costa-quente Sandy & Júnior e a Vanessa Camargo estiverem apresentando o Disk com a "inteligentíssima" Sara, e destruirei aquela indústria bizarra de alienação.
E pra fechar com chave-de-ouro!
Como a MTV se livra do peso na consciência por plastificar a galerinha?! Hã?! Hã?! Divulga uma campanha de incentivo a leitura: "Desliga a TV a vá ler um livro!"... hã?! Mas que bonitinho! Isso é piada ou sarcásmo mesmo?!
Amei o episódio do Caetano (Uns dos poucos bravos a pronunciar "Eme tevê") no VMB! Era pra esculaxar mais... (suspiro)... áureos tempos do Clip-Trip que não voltam mais.
A MTV já teve seu tempo! Não vou tacar pedra na cruz gratuitamente! A MTV foi uma ferramenta importante para que eu achasse bandas incríveis... Mas lá se foram os tempos do Caixa Postal, Hits, e madrugadas de clips alternativos sem interrupção! Quando tocavam mais do que falavam, e quando falavam, informavam sobre o mundo da música. O que aconteceu?!
Digo com todas as letras: FODA-SE A MTV! E tenho dito!
*Ouvindo "Bull in The Heather" do Sonic Youth*
enviada por thaisfairy
09/11/2004 03:57
Blank Freedom
Sou grata pela liberdade do papel em branco sibilando pela primeira palavra, do violão encostado no canto do quarto pedindo a primeira nota, dos livros empoeirados na estante recitando o primeiro capítulo. A tela com o pingo de tinta mostrando o retrato inacabado.
O homem foi generoso consigo mesmo em conceder os versos brancos e pobres, o romantismo despreocupado. Sou piedosa com minha ignorância, deixo-me nas prosas desconexas e incoerentes. No meu conto sem clímax, minhas crônicas sem fatos. Cavulcando com vara curta os sentimentos, faço o que posso para criar, invento lembranças, inovo as realidades não vividas, me coloco em situações fictícias... grito para escutar o eco disso tudo, e na pausa acrescento mais uma palavra.
Mas não há resultado que tire meu fascínio por aquilo que não foi começado. Não há poesia mais lírica do que o papel em branco, não há canção mais bela do que o silêncio a ser cortado, não há livro mais profundo do que a capa virgem que o esconde do prazer de suas páginas folheadas, não há quadro mais expressivo do que o pano branco, pronto para banhar-se no delírio frenético de seu criador. A pedra tosca no cio, pedindo para ser talhada, o incriado clamando para ser logo prostituído, aprisionado e limitado pelos brutos e egoístas sentidos humanos... Iremos nos redimir de tamanha corrupção? Estamos presos naquilo que criamos, tão estúpido como um animal que caminha para a jaula, quando preechemos com nós mesmos, todas as possibilidades do vazio, quando aprisionamos um coração livre e leve, dando-lhe somente o ofício de amar. Vicia-se as poesias, canções, pinturas,etc. Entorpece dos punhos, a criação. Limita o vazio com margens intencionais. Apascentam as feras, colocam sentido no subentendido, apontam e berram estéricos, as entrelinhas. Mas tudo isso não é, nem de longe, mais belo do era no momento antes de existir. Assim, me fascina... um coração trêmulo para amar, batendo sádico, pelo seu açoite, lapidado à ferro e fogo, desaventuras e desilusões, descontentamentos e angústias. Como é livre não existir, beleza infinita é aquilo que está por vir!
A eternidade só pode existir numa ampulheta parada.
*Ouvindo "Sonata ao Luar" de Beethoven*
enviada por thaisfairy
08/11/2004 01:40
At The Door
A semana vai começar, vejo as pessoas apressadas se preparando para seguirem suas vidas, arrumam suas pastas de trabalho, separam seus uniformes escolares, conferem a gasolina do carro, checam suas contas no banco, enquanto eu digo adeus à porta da casa vazia. Tenho medo da casa vazia, tenho medo de estar só... estagnada na porta, observo todos se distanciarem, eu não quero fechar a porta, eu não quero esse silêncio. Não quero ouvir o relógio se distanciar dos meus passos parados. Não quero ver a lentidão dos meus dias consumir impiedosamente a vida que poderia ter sido feita, mas estou cansada de correr n'água, inerte, sufocada, afogada nas tormentas das minhas inseguranças. Minha vida ganha uma consistência onírica, e logo não lembrarei desse torpor repetitivo... dias imersos, melancólicamente parados. Maldita solidão é a consciência! Maldita solidão é esperar, e não ter o mínino de força para lutar contra a tétrica condição natural da existência. Maldito é o discurso verdadeiro. Maldito pensar, desfazer da própria maneira que se fez, se penso, logo existo, se existo, logo dói... Mas a porta está aberta, sei que alguém vai entrar, servirei ao meu célebre convidado, uma xícara de café e lhe darei um forte abraço, aos risos, conversarei sobre o mundo que acompanho pela janela e protestarei sua ida. Será uma tarde agradável, como poucas... será... será...
*Ouvindo "Adagio para Cordas" do Samuel Barber*
enviada por thaisfairy
05/11/2004 14:02
Narcisismo
Eu queria simplesmente escrever sem escrever "eu". Narro-me o tempo todo, e já dizia meu bom amigo, do triste narcisismo que é escrever. Não aguento mais a minha primeira pessoa, não aguento mais esse canto abafado. Mas se me livro desse egocentrismo, acabo me descrevendo nas outras palavras, nas pessoas que caminham despreocupadas nas ruas onde não moro. Gostaria, de não exalar o meu perfume nas flores que cheiro, de não ouvir a minha voz nos tenores, de não me tonalizar nas cores do céu distante. Mas se escrevo, me falo, me grito, me rasgo nas linhas... solto da caneta em meus punhos, o meu sangue. Se me perco, me perco em mim pelos caminhos decorados, me busco com afinco. Se me liberto, me vejo de fora. Mesmo calada, ouve-se ressoar minha essência das batidas do coração, que badala certo: "Eu, eu, eu, eu..."
"Quisera eu falar do nada, sem me preencher no vazio da palavra"
Bárbara
Bárbara era barbada
Ao bruto barbato
Bramia brava
Pelo brando barro
______________
A VIDA COMO ELA É:
Peregrinação à Mauah
Sempre atrasada, colequei meu tênis correndo, peguei minha mochila com meus cd´s e algum trocado. Embarquei a tempo de me redimir do meu fim-de-semana condenado ao tédio, e fui finalmente pra Mauá encontrar o pequeno Bunda 'Léo' (Tantas Palavras) e seus fiéis discípulos: Tiago (Vastas Emoções) e Júlio (My Own Little World). Ao pisar na terra prometida, fui logo avisada por um mensageiro ligeiramente entorpecido, que o mestre Bunda e seus discípulos já estavam a minha espera (nunca duvide da onisciência do Pequeno Bunda).
Fui levada a um parque para o ritual do equilíbrio (numa gangorra), rotação (num gira-gira) e força (num trepa-trepa), vale a pena lembrar que o discípulo Tiago não foi bem sucedido nesse último, seu corpo se prendeu nas barras. Fomos levados à senda dos sapos, numa espécie de tratamento de choque, no qual o Pequeno Bunda nos deu uma lição de humildade: "Nunca jogue pedras nos sapos, eles podem se vingar!".
Nos reunimos num célebre banquete oriental no Habbibs regado a sucos de morango, pizza e sorvete, onde discutimos assuntos existenciais, tais como: Cinema, música, política, etc. Então, aprendi a pensar antes de falar, pois qualquer idéia mal colocada era severamente censurada com o Troféu Joinha seguido de uma chuva de guardanapos, o que ocorreu 5 vezes com o discípulo Júlio.
Logo após o banquete, fui conduzida ao Grande Templo do Pequeno Bunda. Morrendo de sono e com muita falta de concentração, alcançamos então, a tão almeijada Leseira-Nirvânica, estado em que a nossa mente se desprende absolutamente da fuckidão, e que começamos a falar besteiras epicênicas.
Quando o dia despertou, nós finalmente dormimos, exaustos.
Voltei iluminada, leve, disciplinada!
O livro "O Diário de um Bunda" está em andamento, sinto a necessidade de compartilhar com meus irmãos o que aprendi no caminho de Santo André de Compostela e os ensinamentos do Pequeno Bunda, os quais libertaram minha alma do carma errante da fuckidão.
Balneário Ruídos Silenciosos
Supermercado:
(Léo, Vinícius, Luiz e eu)
_ Sou vegetariano, não como salsicha...
_ Compra salsicha de frango do cebolinha!
_ Ai tá muito caro... peraí, pega a "Peru Light & Elegant".. AHuahUhaU
_ É minha cara.
_ E agora?! Quem vai de carro e quem vai de ônibus?!
Vamos pelo princípio básico da democracia mística dos dedinhos, ai ai... Nunca tive sorte! Mas tudo bem, o Júlio (my Own Littke World) seria meu companheiro na viagem até Joanópolis (divisa de SP com MG) no balneário da Rê (Ruídos SIlenciosos).
_ Gente, Que horas sai o ônibus?
_ Às seis da manhã!
No dia seguinte, às 5:45 em frente ao guichê de ônibus:
_ Que horas sai o próximo ônibus pra Joanópolis?
_ Às nove...
(Rê, eu, Júlio e Vinícius)
Valeria esperar qualquer eternidade para estar com meu amigos. Chegando, fomos rececepcionados pelo Luiz (blog.lap), Léo (Tantas Palavras), Tiago (Vastas Emoções), Vinícius (Viny Page) e a Renata com o almoço:
_ Gente, a panela tá pequena pra tanto macarrão.
_ Luiz! Tá transbordando! Tira um pouco da água com o copinho!
_ HAUhaUha O Thiago quebrou o pegador de macarrão AHuaHUAH
_ Ai Rê, desculpa.. eu pago, viu?!
De barriga cheia, estirados na rede, desfrutamos o momento Caymmi com violão e pseudo-brigadeiro (mas tava gostoso, fala aí). Após a digestão, fomos nadar na represa.. ah sim! A tia sempre ensina que não devemos nadar de barriga cheia, e eu, sendo uma goiaba nata que acredita nessas coisas, esperei a comida ascentar.
_ Ai, tá muito frio!
_ Mergulha que melhora, sem triscar com o dedinho na superfície gélida, lembra que eu postei sobre isso?!
_ Ai credo, tem muito barro aqui...
_ O Léo e Luiz tá tacando pedra na gente!
_ Ai, que terror psicológico, eu não enxergo as pedras voando.. tô sem óculos!
_ Afff Thi, eu também não enxergo sem óculos!
_ Ai como o Léo e o Luiz são desagradáveis...
Se congelamos nossos corpos na represa, para compensar, nos aquecemos com vinho e queijo... momento pseudo, banquete "Light & Elegant"... elegantíssimo por sinal com direito a sinfonia gástrica. Assisti os primeiros cinco minutos do filme "E sua Mãe Também" e dormi.
E como Einstein estava certo em dizer sobre a relatividade do tempo, tudo passou tão rápido... últimos momentos: café da manhã, jogo-da-verdade, despedida do Tiago e o Vinícius que voltaram de ônibus e logo já estávamos no carro... retornando para casa.
Cheguei em casa, com o coração apertado, já morrendo de saudades dos meus amigos... Com a velha sensação de contraste, meus bons amigos, aonde estão? Que sentimento esquisito, de repente tudo fica vazio, e é quando ainda posso ouvir suas vozes, suas frases, suas exclamações, suas risadas na minha cabeça. Me flagro dando risada sozinha, vendo como um filme tudo o que passou e sentindo forte no coração tudo o que ficou... a alegria de ter amigos tão especiais, onde estão meus amigos, onde está minha alegria?
Muitcho Agradicida, Deus lhi pague fios!
(Sentido horário: Tiago (de óculos), Júlio, Luiz, Léo e Vinicius)
*Ouvindo "You" do Massive Attack*
enviada por thaisfairy
28/10/2004 23:18
hey aqui é a bruise postando..eu arrumei o template da thais..hohohohoho
http://bruiseviolet.weblogger.com.br
enviada por thaisfairy
25/10/2004 00:47
Deep Surface
Não gosto muito de Titãs, mas domingo eu quero veeer, o domingo passar, domingo eu quero veeeer, o domingo acabar! Se é pra começar a semana, que começe logo caceta! Se for pra mergulhar na água gelada, sem rodeios, sem triscar com os dedinhos do pé na superfície gélida, tomemos logo o fôlego e coragem necessária e pulemos logo no caldo hipotérmico do cotidiano, mas no meio do salto, gritarei alto... e nesse instante, vos escrevo, antes que essa onda fria congele minhas palavras e os lábios trêmulos não sejam capazes de pronunciar o verbo inerte nas profundezas dos dias cinzas. Estou suspensa, e teria um termo mais perfeito para definir um domingo à noite?! Suspensa, alheia, enquanto espero a água fria se chocar com a carne morna, e olho pra trás esquecendo que agora já é tarde, que parar é possível, mas voltar não. Espero um bom megulho, se por ventura me faltar o ar, logo voltarei à tona para aliviar-me nesse frenesi asmático de escrever, cuspirei toda minha verborragia dos meus pulmões espremidos. Pois logo não confio no silêncio, pois logo não confio no meu fôlego asfixiante de me calar. Manterei meus olhos, que tanto ardem nessa solução turva de viver, bem abertos, não quero perder a noção de profundidade, não quero que o abismo dessa normalidade semanal me sulgue de vez, é sempre preciso estar atenta para saber voltar à superfície quando o corpo pesado já não pode boiar. Com braços firmes, nado e desvio as possíveis algas para não me embaraçar, desincronizando assim, meu tempo n'água, pois não quero que meus dedos erruguem tão cedo, não quero estar velha quando me secar desses dias. E quando eu alcançar enfim o outro leito, espero uma mão forte para me puxar da minha exaustão e um abraço quente para me escoar dessa solidão em gotas.
Primevera, verão, outono, inverno e... primavera
Numa conversa pelo telefone com o Léo (Tantas Palavras), concordamos como a realidade cíclica nos é necessária para situarmos nossa vida em começo, meio e fim, e então poder renová-la num novo começo (haja redundância), nos dando ânimo de continuar ao nos iludirmos que estamos começando. Começa o dia, acaba o dia... começa o mês e acaba o mês, começa o ano, e acaba o ano. O fim, além de nos trazer uma certa melancolia nostálgica, por equilíbrio e compensação, nos traz também, a esperança de um novo começo. Sim, precisamos disso e muito! Imagine só ler um livro de mil páginas sem capítulos ou nenhuma pausa? Precisamos viver em fragmentos cíclicos, pois o caminho retilíneo nos assusta.
Bem, repetindo o que eu acabei de dizer, é o que o filme do coreano Kim Ki-Duk mostra em Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera, contando a história de dois monges que vivem numa espécie de mosteiro flutuante. Não pensei, ao entrar na sala de cinema, que o filme fosse mexer tanto comigo, mas me supreendi. O filme mostra essa idéia de ciclo, tão enfatizada pelas culturas orientais-budistas, de uma forma trágica e ao mesmo tempo esperançosa... exatamente, entre o fim, reticências e começo.
E o Troféu Goiaba-Joinha Vai Para:
_ Ai! Coitada da mocinha que tem que repetir: "Nina é uma livre adaptação de Crime e Pecado..." (Se referindo ao livro "Crime e Castigo" do Dostoievski) "...Que seja, eu não li esse livro!"
_ Nem eu.. HAHAHHAHA
_ Nossa, receber o ingresso de professora foi uma premodição do futuro...
_ Léo, a pessoa que sentar ao meu lado será minha alma-gêmea! (O filme acaba e o lugar continua vago).
*Ouvindo "Concrete Sky" da Beth Orton*
enviada por thaisfairy
22/10/2004 20:43
Black & White
Meu dia começa nas variantes dos berros das crianças que empinam pipa e exclamam palavrões. Levanto e observo o sol refletido nas janelas do ônibus que já levaram tantas pessoas nessa manhã, quando eu apenas tentava ultrapassar o barreira do sono. O telefone toca, mas não me chama. No hall, os elevadores sobem e descem, posso ouvir o barulho das correntes, sinto o peso que equilibra o caminho vertical das pessoas anônimas que convivem comigo através dessas paredes finas. Mais um copo de café preto, envolta de formas brancas que surgem entre a nuvem de fumaça do meu cigarro. Me puxe para fora, pois a paisagem já se tornou preta e branca dentro desses olhos cansados. Me fale de política, sobre o soldado que foi preso por abusar dos iraquianos, por favor, guie essa conversa para que eu não volte a cair em pieguices ordinárias, pois não quero parecer auto-piedosa e você não entenderia o meu silêncio. Eu já disse que cansaço não é tristeza. Me tire daqui por favor, mas seja sutil e me pegue pelas mãos, senão não irei.
Não entendo por que me sinto assim, por que tudo não parece tão poético como os sons da palavras que quis dizer, por que tudo é tão cru. E por mais uma vez pedirei desculpas por não conseguir sorrir. Eu sei, a culpa é minha, sei que deveria tomar logo uma atitude e mudar logo, mas hoje não. E você me diz: "Então se mate!"... Eu diria: "Não tenho, nem nunca tive, motivos para isso" e mesmo assim, não repetirei hoje que a vida é bela, eu sei que é, mas não quero dizer.
Esse é o meu vazio sem o nada, meu romantismo sem amor, minha boemia sóbria, minha comédia sem graça, minha melancolia sem dor, só os dias que passam e passam rápido demais e eu que os percebo tão devagar. Estou bem, o dia já se foi tão cedo, ah sim! É que acordei tarde! E o café já estava frio...
*Ouvindo "Colorblind" do Counting Crows*
enviada por thaisfairy
20/10/2004 23:46
Serial Experiments Lain
É muito difícil um animê me chamar atenção, mas descobri Lain sem querer, quase que obrigada. Quando o relógio marca 8:50, meu irmão já avisa que seu desenho vai começar, não importa o que eu esteja assistindo, tenho que abrir mão pelo desenho sagrado e entregar a posse do controle remoto. Um belo dia então, resolvi assistir o tal desenho, que leva apenas 30 minutos por capítulo, e descobri uma trama muito interessante!
Tudo começa quando um menina chamada Lain começa a receber emails de Chisa, uma amiga que se suicidara, dizendo que está viva numa espécie de dimensão cibernética- NEXO- tão difundida quanto a internet. O nexo funciona a partir dos impulsos magnéticos do cérebro conectados por uma rede similar a internet. Lain, que até então nunca entrara no NEXO, começa a dominar o sistema e a descobrir poderes que nunca imaginava possuir, se tornando quase uma espécie de Deus onisciente nessa realidade.
É uma história complexa, que confesso não ter entendido por completo até agora (afinal, peguei o bonde andando). Também não são todos os dias que assisto, pois às vezes a trama fica demasiadamente parada. Mas a atmofesra densa e melancólica da personagem realmente me conquistou. Esse certamente irá para o Hall dos melhores animês que já pude ver, só perdendo pro clássico Akira.
Lain passa no canal pago Locomotion de segunda à sexta às 21:00, pra quem não tem tv a cabo resta a opção dos DVD´s disponíveis em sites de venda, ou lojas especializadas.
BÔA
Outra coisa que me chamou muito atenção em Serial Experiments Lain foi a trilha sonora excelente! A música de abertura foi o principal chamariz para que eu assistisse o aminê... sabe aquela musiquinha que fica na sua cabeça e você fica cantarolando o dia inteiro mesmo sem saber a letra? Pois é, eu precisava descobrir que música maravilhosa era aquela, tanto mexi que acabei descobrindo a banda BÔA. Amei! Apesar da vocalista parecer japonesa e puxar até um sotaque, a banda é inglesa. Os próprios integrantes declaram ser difícil definir o tipo de música que tocam, trata-se de uma mistura de tudo que eles gostam. Realmente eles devem ter um ótimo gosto, pois o resultado é fabuloso. O nome da banda é sugestivo, procurando por uma explicação no site da banda, acabei encontrando: "O nome tem muitos significados, por exemplo, quer dizer "bom" em português..." O site oficial disponibiliza algumas mp3, fotos e até tablaturas das músicas. Vale muito a pena conferir, principalmente a música-tema de Lain (uma balada linda): Duvet
BÔA Official Site
*Ouvindo "Duvet" do BÔA*
enviada por thaisfairy
19/10/2004 16:21
Nada demais
A segunda semana desempregada já me rendeu muitas coisas úteis. Pude por exemplo: Catalogar todos meus cd´s por ordem alfabética, limpar o sub-universo empoeirado debaixo da minha cama, separar meus livros pelo autor, alimentar meu beta todos os dias (Ah sim! Essa parte eu exagerei, mas digamos que a abstinência de comida, transformou um simples peixinho ornamental, numa besta selvagem, um peixe-mcgyver que faz milagre para sobreviver de musgo, bactérias aquáticas e plânctons, acho que criei uma sub-espécie aquática no aquário 3x4 da minha casa... Darwin explica!), e mudar um pouco a cara desse blog, que mais parecia a casa-da-vó, aquela que não importa quando tempo vc demore pra voltar, sempre está do mesmo jeito. Claro que não foi de livre e expontânea vontade, todos que me conhecem, sabem bem como odeio mudanças, mas fui obrigada a inovar esse jardim, depois que fiz uma cagada gigantesca e irremediável deixando o template completamente torto. É pobre, mas é limpinho viu!
Desfruto do meu ócio-inativo, e a velha rotina sedentária volta à tona: Acordar às 14:00, insônia, e uma alma penada que vaga pelo apartamento fumando pela madrugada sem fim, o pessoal aqui em casa descofia que seja um espírito indígena errante metade caipora, metade macunaíma... "Ai! Que preguiça!
Adaptação
Que filme brilhante! Charles Kaufman conseguiu me supreender mais uma vez! Mestre dos filmes esquisitos, Kaufman foi o roteirista de um filme que era roteirista, confuso?! Não não... é isso mesmo. Kaufman com a parceria do diretor Spike Jonze realizou a proeza de mostrar as próprias dificuldades em adaptar um livro sobre flores, sem nenhum roteiro certo, para o cinema. O filme dá aquela sensação de olhar para o reflexo de um espelho que reflete a imagem de outro, causando a sensação de paradóxo e infinito. Por exemplo: Digamos que eu começasse a escrever um livro, e na primeira página estivesse escrito: "Digamos que eu começasse a escrever um livro e na primeira página estivesse escrito..."
No filme, Kaufman é rodeado por diálogos introspectivos, e por um irmão gêmeo, Donald kaufman, uma espécie de "alter-ego", um típico roteirista comercial hollywoodano. O interessante, além de ver o Kaufman pelo próprio Kaufman, é quando Donald, intervém na história de Charles, desviando visivelmente o estilo esquisito de Kaufman, para algo mais clichê e convencional, também uma deixa para criticar esse tipo cinema. O filme mostra Kaufman nas filmagens de seu filme anterior Quero ser Jonh Malkovich, inclusive com a participação do próprio Jonh Malkovich. Kaufman é interpretado por Nicolas Cage, e a escritora do livro a ser adaptado recebe uma interpretação maravilhosa e versátil de Meryl Strip.
Esse sem sombra de dúvida é o melhor filme sobre filme que já assisti!
*Ouvindo "Maps" do Yeah Yeah Yeahs*
enviada por thaisfairy
13/10/2004 20:10
26º Bienal de São Paulo
Domingo fui conferir a 26º Bienal de São Paulo. Não vou falar que amei, que adorei, ou que voltarei para ver o restante das obras que não deu tempo para ver. Interessante, eu diria com meus olhos leigos dessa arte, que tão pouco me toca ou esclarece. Me contento em dizer que gostei, que não perdi meu tempo, que uma ou outra instalação realmente me chamou atenção. Bom mesmo foi "apreciar" a impenetrável arte moderna (ou teria outra classificação?) com a ilustríssima cyberpatota, que não poupa esforços para satirizar qualquer situação do tipo:
Como parecer inteligente ao analisar uma obra, numa exposição, a qual você nem imagine o que possa significar:
1º Dica: Primeiro de tudo é o que você demonstra fisicamente, portanto, segure seu queixo, começe a franzir sua testa, esprema seus olhos, aproxime-se da obra somente com o pescoço, finja que está lendo a plaquinha ao lado, |